Pralavamostodos

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BlaBlablá !

sábado, 28 de novembro de 2009

Fw: Filosofando no boteco-ah, passado!


 

PARA OS MEUS AMIGOS COROAS

Eu sou de um tempo distante

O chamado tempo do onça

Tempo em que qualquer máquina

Era uma geringonça

Sou do tempo em que

Se amarrava cachorro com linguiça

E em que todos domingos

A gente ia missa.

Trago lembranças bacanas

Das Casas Pernambucanas

Das farras, no bonde aberto

Dos chapéus da Casa Alberto

Tempo em que adultério era crime

E meu Tricolor ainda tinha bom time.

Do busca-pé, do rojão,

Sou do tempo do xarope São João.

Venho do tempo em que

Menino só gostava de menina

Tempo do confete e serpentina

Nas festas de Carnaval

Do Sírio, do Monte Líbano,

Dos bailes do Municipal

E o melhor dessa história

Eram os baile no Hotel Glória

Sou do tempo do bicarbonato

Do lançamento do Sonrisal.

Sou do tempo em que futebol

Era pra cara macho

Em que ninguem sossegava o facho

Nos bailes de formatura

Sarrando com a rola dura

Quando a gente engomava a cueca

E ainda se jogava sueca

Dos play-boys botando banca

Tempo que o telefone era preto

E a geladeira era branca.

Sou do tempo em que se confiava

Nas companhias aréas

Em que a penicilina

Curava as doenças venéreas

Sou do tempo da Rádio Nacional

Do lança perfume no Carnaval

Do calouro na hora da peneira

Tempo em que pó era o mesmo que poeira.

Tempo do terno risca de giz

Da calça de boca apertada

Da Lapa de Madame Satã

De poder ir torcer no Maracanã

E lembrar da mãe do juiz.

Sou do tempo do Doi-Codi

Do comigo-ninguem-pode

Da alegria desvairada

Da ditadura hoje caluniada

Sou do tempo em que ficar

Era apenas não ir

Tempo de permitir

Passeios à beira-mar

Tempo de se curtir a vida

Sem medo de bala perdida

Tempo de respeito pelos pais

Enfim, sou de um tempo que não volta mais.

Sou do tempo da brilhantina

Do laquê, da Glostora, do Gumex

O correio não tinha Sedex

O que vinha era telegrama

Trazendo uma má notícia

Sou do tempo em que a polícia

Perseguia todo sambista

Que tivesse alguma fama.

Tempo em que só mulher usava brinco

Em que as portas não tinham trinco

E que se dizia demorou

Só pra quem chegasse atrasado

As calças não perdiam o vinco

Picada era só na bunda

Se aquela febre profunda

Não tivesse melhorado.

No meu tempo coca era refrigerante

E todo homem elegante

Abria a porta do carro.

Aceitava-se qualquer cigarro

Sem medo de ser um novo fato

Só preço podia ser barato

Bicho era só animal

Cara, o rosto do pobre mortal.

Sou do tempo do tergal

Do ban-lon, do terilene,

Da Emilinha e da Marlene

No sucesso musical

Sou do tempo do mocinho

E o vilão com cara de mau

Do reclame de fortificante

Do óleo de fígado de bacalhau.

Sou do tempo do coreto e da banda

Do velho cigarro Yolanda

Vendido na venda da esquina

Sou do tempo da estricnina

Veneno tão poderoso

Sou do tempo do leite de magnésia

Do sagu, do fubá Mimoso

Do fosfato que curava a amnésia

Sou do tempo da cocoroca

Do tempo da Copa Roca

Que muita gente não viu

Do progresso tão abrupto

Que todo mundo assistiu

Porém, político corrupto

Como rato que sai da toca?

Ora! Esse, sempre existiu!

Sou do tempo em que Benjor

Se chamava Jorge Ben

A carne do bife era acém

Carne de cachorro era bofe

No meu tempo não havia estrogonofe

Sou do tempo do tostão e do vintém

Da zona com seus bordéis

Programas de dez mil réis

Sou do tempo da Cibalena e do Veramon

E da revista Fon-fon

Assisti filmes do Rin-tin-tin

Sou do tempo da confeitaria Manon

Da magia, do pó de pirlimpimpim

Colecionei estampas Eucalol

Acompanhei o lançamento da Avon

Tomei o fortificante Calcigenol

Sou do tempo da PRK 30

Do rádio tipo capelinha

Dos contos da Carochinha

Do remédio no bonde anunciado

"Veja ilustre passageiro

o belo tipo faceiro que o senhor tem a seu lado

Mas, no entanto, acredite, quase morreu de

bronquite, salvou-o o Rhum Creosotado".

Sou do tempo da Cafiaspirina

Da compressa de antiflugestina

Do bálsamo de benguê

Fui leitor do almanaque Tico-Tico

Tempo em que trabalhador ficava rico

Sou do tempo da Casa Cavê

Do taco com cera Parquetina

Sou do tempo do óleo de linhaça

Andei na Maria Fumaça

Li muito a revista Cruzeiro

Escrevi com caneta- tinteiro

Separei o joio do trigo

Vi muito vigarista na cadeia

Só não fui garçon da Santa-Ceia

Também não sou assim tão antigo

E pra você, meu amigo

Que tambem sente saudade

Vou confessar-lhe a verdade

Naquele tempo, orgulhoso

Eu via o meu pau lustroso

Só ao olhar um joelho

Mas, hoje, olhando no espelho

Chego até a me sentir mal

Ao invés de caralho vejo apenas um bilau

Ainda que me dê alegrias

Já não é aquela orgia

E ao invés das seis numa tarde

Fico em uma bem dada

Senão o bicho já arde

E a patroa fica irritada

Ainda não usei Viagra

Mas usarei se preciso

Espero que não leve flagra

Porque deve "ser fora", aviso!

SAINT-CLAIR PAES LEME

Filósofo de botequim pé-sujo

 










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